Um País que perde milhões de habitantes pode se dar ao luxo de afastar seus próprios descendentes?

As novas projeções demográficas divulgadas pelo ISTAT colocam a Itália diante de uma realidade que já não pode ser tratada como uma hipótese distante. O País caminha para uma redução significativa de sua população, acompanhada por um envelhecimento progressivo, pela diminuição da força de trabalho e por uma profunda transformação de sua estrutura familiar e social.
Segundo os dados publicados, a população residente poderá passar dos atuais 58,9 milhões de pessoas para cerca de 55 milhões em 2050 e apenas 45,8 milhões em 2080. Em pouco mais de meio século, a Itália poderá perder mais de 13 milhões de habitantes.
O próprio ISTAT considera a diminuição da população um resultado praticamente certo, já que nenhum dos cenários analisados prevê, no médio e longo prazo, um retorno aos níveis demográficos atuais.
Não se trata de uma opinião política, de uma previsão jornalística ou de uma simples suposição sobre o futuro. São projeções demográficas elaboradas pelo Istituto Nazionale di Statistica com base em dados oficiais relativos à população residente, às famílias e à força de trabalho.
Os números não descrevem apenas uma Itália com menos habitantes. Descrevem também um País progressivamente mais envelhecido.
A idade média continuará aumentando, enquanto crescerá de forma significativa a proporção de pessoas com mais de 65 anos e diminuirá o peso da população em idade ativa. Em 2080, os maiores de 65 anos poderão representar aproximadamente 36,8% da população, enquanto a faixa entre 15 e 64 anos poderá cair para cerca de 53,2% do total.
As consequências são evidentes. Haverá menos trabalhadores, menos contribuintes, menor renovação geracional e uma pressão cada vez maior sobre os sistemas previdenciário, sanitário e assistencial.
Também será mais difícil manter economicamente vivas cidades e pequenas comunidades que já hoje enfrentam o despovoamento e o envelhecimento da população. O futuro descrito pelos números não começa em 2080. Ele já pode ser visto no cotidiano italiano.
Existe ainda um dado particularmente importante. Nem mesmo o saldo migratório positivo previsto será suficiente para compensar as perdas decorrentes da diferença entre nascimentos e mortes. O ISTAT prevê que a Itália continuará recebendo do exterior mais pessoas do que aquelas que deixarão o País, mas isso não impedirá o declínio demográfico provocado pelo saldo natural negativo.
Esse dado deveria ser suficiente para abrir uma reflexão nacional muito mais profunda sobre o futuro da Itália e, sobretudo, sobre quem poderá participar da reconstrução demográfica, econômica e social do País.
A pressão migratória já afeta o Estado e a Justiça
Quase ao mesmo tempo em que foram divulgadas as novas projeções demográficas, outra notícia ajudou a compreender a dimensão dos desafios que a Itália terá de enfrentar.
A Relazione n. 35/2026 do Ufficio del Massimario della Corte di Cassazione analisou os efeitos do novo regime europeu em matéria de migração e asilo e o impacto potencial dessas mudanças sobre a atividade jurisdicional.
Segundo os dados citados, os procedimentos de fronteira atribuídos à Itália poderão alcançar 16.032 em 2026, 24.048 em 2027 e 32.064 em 2028. A própria relação chama atenção para a pressão que as controvérsias relativas à proteção internacional poderão exercer sobre o trabalho da Suprema Corte.
É importante esclarecer que esses números não correspondem automaticamente a 32 mil recursos perante a Corte di Cassazione. Eles se referem aos procedimentos de fronteira atribuídos à Itália e ao potencial contencioso que deles poderá resultar.
O novo sistema prevê recursos e outras formas de tutela judicial em matérias relacionadas à retenção de requerentes de asilo, procedimentos de fronteira, medidas alternativas, obrigações de residência em locais específicos e retenções para averiguações. Em determinadas situações, também a Corte di Cassazione poderá ser chamada a decidir.
Nada disso significa que o Estado italiano não deva garantir proteção jurídica aos imigrantes. Naturalmente deve.
Um Estado de Direito tem a obrigação de assegurar os direitos fundamentais e o acesso à Justiça a qualquer pessoa submetida à sua autoridade, independentemente da nacionalidade. A Itália possui obrigações constitucionais, europeias e internacionais que precisam ser respeitadas.
A questão que merece reflexão é outra.
É difícil compreender como o mesmo Estado que precisa organizar normas, procedimentos administrativos, estruturas de acolhimento e instrumentos jurisdicionais para administrar os atuais fluxos migratórios demonstra tão pouca capacidade de formular uma política ampla e coerente para os milhões de descendentes de italianos espalhados pelo mundo.
Esses descendentes não têm qualquer relação com os atuais fluxos migratórios. O vínculo deles com a Itália nasce diretamente da própria história italiana.
Quando foram os italianos que precisaram partir
Durante décadas, milhões de italianos deixaram o País porque aqui não encontravam as condições necessárias para construir o próprio futuro.
Guerras, pobreza, fome, falta de trabalho e ausência de perspectivas obrigaram famílias inteiras a buscar novos horizontes. Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Venezuela e tantos outros países receberam italianos que deixavam para trás suas cidades, suas famílias e uma terra na qual, muitas vezes, teriam preferido permanecer.
Partiram levando consigo seus sobrenomes, seus costumes, seus dialetos, suas tradições e sua memória familiar. Em outros continentes construíram comunidades, associações, escolas, empresas, hospitais e instituições que mantiveram vivo durante gerações algum tipo de vínculo com a Itália.
Também é necessário reconhecer uma realidade histórica incômoda. Em muitos casos, aqueles italianos foram abandonados pelo próprio Estado.
A Itália daquele tempo não conseguiu oferecer trabalho, segurança e perspectivas suficientes para que permanecessem. Foram obrigados a procurar em outros lugares aquilo que sua terra de origem não conseguia lhes proporcionar.
Seus filhos nasceram longe. Seus netos nasceram longe. O mesmo aconteceu com seus bisnetos.
Isso não ocorreu porque aquelas famílias simplesmente decidiram romper seus vínculos com a Itália. A distância geográfica acumulada ao longo das gerações foi, em grande medida, consequência direta das condições históricas que empurraram milhões de italianos para fora de seu próprio território.
É justamente por isso que causa tanta indignação constatar que, no momento em que a Itália começa a enfrentar uma das crises demográficas mais graves de sua história moderna, a resposta legislativa tenha sido limitar profundamente o reconhecimento da cidadania a uma parte dos descendentes daqueles mesmos italianos que um dia precisaram partir.
A contradição da reforma de 2025
As mudanças legislativas de 2025 foram justificadas, entre outros argumentos, pela necessidade de reforçar a existência de vínculos efetivos com a República Italiana.
Se esse fosse realmente o objetivo principal, seria natural esperar uma política nacional destinada a reconstruir concretamente a relação entre a Itália e sua diáspora.
Seria possível imaginar programas de retorno, incentivos para famílias jovens, procedimentos mais simples para reconhecimento de qualificações profissionais, formação linguística, políticas habitacionais e medidas capazes de favorecer a instalação em municípios atingidos pelo despovoamento.
Também seria razoável prever instrumentos específicos para empresários, pesquisadores, profissionais altamente qualificados e investidores interessados em transferir para a Itália conhecimento, patrimônio e experiência adquiridos durante décadas no exterior.
Uma medida concreta foi efetivamente adotada. Determinados descendentes de cidadãos italianos provenientes de alguns países podem beneficiar-se de uma possibilidade facilitada de entrada na Itália para trabalho subordinado fora das quotas ordinárias.
Seria incorreto ignorar essa iniciativa. O problema está em imaginar que ela possa representar uma verdadeira política de retorno da diáspora.
Existe uma contradição profunda em limitar o reconhecimento da cidadania iure sanguinis e, ao mesmo tempo, reservar ao descendente uma via de entrada essencialmente vinculada à sua condição de trabalhador subordinado.
A mensagem transmitida é difícil de aceitar. O vínculo histórico e familiar com a Itália pode deixar de ser considerado suficiente para o reconhecimento da cidadania, mas volta a adquirir importância quando esse mesmo descendente pode ocupar um posto de trabalho de que o País necessita.
É muito pouco.
Os descendentes da emigração italiana não constituem uma reserva internacional de mão de obra.
Entre eles há empresários, pesquisadores, médicos, engenheiros, advogados, arquitetos, agricultores, comerciantes, investidores, professores, técnicos e profissionais das mais diversas áreas. Há pessoas que construíram patrimônio, conhecimento e experiência internacional ao longo de gerações nos países em que suas famílias se estabeleceram.
É inevitável perguntar o que a Itália oferece ao descendente que não pretende chegar ao País para ser empregado, mas para empreender.
O que acontece com aquele que deseja abrir uma empresa, investir seu próprio patrimônio, criar postos de trabalho, recuperar um imóvel abandonado, desenvolver uma atividade agrícola, fundar uma empresa de tecnologia, exercer uma profissão ou investir justamente em um dos pequenos municípios italianos que perdem habitantes todos os anos?
Onde está a política destinada a essa pessoa?
Onde estão os instrumentos concretos capazes de transformar conhecimento, capital e experiência adquiridos no exterior em desenvolvimento econômico dentro da Itália?
O problema é ainda maior para quem quer empreender
A questão se torna ainda mais evidente quando observamos a realidade de quem já vive na Itália.
O cidadão italiano que nasceu aqui, estudou aqui, conhece a língua, compreende a administração pública e sabe como funcionam as instituições já enfrenta enormes dificuldades para empreender.
A complexidade tributária, a burocracia, os custos, as autorizações, os procedimentos administrativos e prazos muitas vezes incompatíveis com as necessidades da atividade econômica constituem obstáculos permanentes para quem pretende criar e desenvolver uma empresa.
Se até mesmo quem sempre viveu na Itália encontra dificuldades para encontrar um ambiente simples e favorável no qual transformar uma ideia em atividade econômica, é legítimo perguntar que política realmente existe para o descendente que deseja retornar não para procurar emprego, mas para criar empregos.
Essa talvez seja uma das maiores fragilidades da atual visão sobre a diáspora.
Uma verdadeira política de retorno não pode se limitar à possibilidade de alguém vir à Itália para trabalhar para outra pessoa. Deveria criar condições para que esse descendente pudesse construir algo na Itália.
Talvez ele possua exatamente aquilo de que o País precisará cada vez mais nas próximas décadas. Juventude, filhos, conhecimento, capital, experiência internacional, capacidade empresarial, vontade de investir e disposição para iniciar uma nova vida na terra de seus antepassados.
A Itália deveria estar interessada em conhecer quais descendentes desejam viver aqui, trazer suas famílias, comprar imóveis, recuperar propriedades abandonadas, investir, produzir, desenvolver tecnologia, abrir empresas e criar postos de trabalho.
Isso significaria dar conteúdo real ao conceito de vínculo efetivo.
O que existe hoje ainda está muito distante dessa visão.
Em muitos casos, um descendente pode deixar de ser reconhecido como italiano, mas pode encontrar uma via especial de entrada se estiver disposto a ocupar um posto de trabalho subordinado.
Para um País que possui uma das maiores diásporas do mundo e que, ao mesmo tempo, se prepara para perder milhões de habitantes, essa resposta é insuficiente e revela uma preocupante falta de visão estratégica.
A Itália não precisa escolher entre imigração e diáspora
Defender uma política séria para os descendentes de italianos não significa questionar os direitos daqueles que atualmente chegam à Itália por outras formas de migração.
São realidades diferentes.
A Itália continuará tendo de administrar a imigração e continuará obrigada a respeitar os direitos fundamentais daqueles que chegam ao seu território. O Estado e a Justiça precisam cumprir suas respectivas funções.
Nada disso impede que exista, paralelamente, uma política nacional voltada à própria diáspora italiana.
O que causa perplexidade é verificar a capacidade do Estado de criar novas regras, procedimentos, estruturas e mecanismos destinados a administrar os movimentos migratórios contemporâneos e, ao mesmo tempo, observar a ausência de uma estratégia igualmente ambiciosa para reconstruir a relação com os descendentes daqueles italianos que o País perdeu ao longo de sua história.
O debate já não é apenas histórico ou sentimental.
Hoje ele é demográfico, econômico, previdenciário, territorial, produtivo, cultural e jurídico.
Os dados oficiais indicam que a Itália poderá perder mais de 13 milhões de habitantes. A população continuará envelhecendo e diminuirá o número de pessoas em idade ativa. Nem mesmo o saldo migratório positivo projetado será suficiente para compensar completamente o declínio provocado pelo saldo natural negativo.
Ao mesmo tempo, o Estado e a Justiça já se preparam para enfrentar um volume crescente de procedimentos relacionados à imigração e à proteção internacional.
É diante dessa realidade que causa ainda mais indignação acompanhar as batalhas administrativas e judiciais travadas por descendentes de italianos para preservar uma relação jurídica nascida justamente da história deste País.
Talvez uma parte do futuro da Itália já esteja espalhada pelo mundo
Naturalmente, nem todos os descendentes de italianos desejam viver na Itália.
Nem todos falam italiano, nem todos mantiveram um vínculo cultural concreto com o País e nem todos pretendem abandonar os lugares onde nasceram e construíram suas vidas.
Isso é evidente.
Mas justamente por essa razão seria necessária uma política inteligente, capaz de identificar e aproximar aqueles que realmente desejam transformar sua origem familiar em um projeto de vida presente na Itália.
Existem no mundo milhões de descendentes que poderiam trazer famílias, filhos, trabalho, conhecimento, capital, empreendedorismo, experiência internacional e capacidade de investimento.
O Estado deveria criar condições para aproximar essas pessoas, em vez de primeiro restringir seu vínculo jurídico e depois oferecer uma possibilidade limitada de entrada destinada principalmente a satisfazer a necessidade de trabalho subordinado.
A Itália pode modificar suas leis, estabelecer critérios e combater abusos. Tudo isso faz parte do debate democrático.
O que não deveria fazer é perder sua própria memória.
Milhões de italianos deixaram o País porque, em determinado momento histórico, a Itália não conseguiu lhes oferecer as condições necessárias para permanecer. Seus descendentes cresceram longe porque seus pais, avós e bisavós precisaram procurar em outras terras as oportunidades que aqui não existiam.
Hoje são os próprios dados oficiais do Estado italiano que mostram a dimensão do problema que se aproxima.
Diante dessa realidade, afastar justamente uma parte dessa descendência torna-se uma escolha cada vez mais difícil de compreender.
Uma verdadeira política de retorno não se mede por discursos, nem apenas pelo conteúdo de uma norma. No papel, qualquer intenção pode ser escrita.
Ela se mede por oportunidades concretas para reconstruir uma vida, formar uma família, investir, empreender, trabalhar e participar plenamente da sociedade italiana.
A diáspora italiana não pode ser vista apenas como uma fonte conveniente de trabalhadores estrangeiros à qual recorrer quando faltarem pessoas no mercado de trabalho.
Ela faz parte da história da Itália.
E, se houver capacidade política e visão de futuro, também poderá fazer parte da solução para os problemas que os números já estão anunciando.
A Itália está perdendo população e envelhecendo. Isso já não é uma suposição.
Talvez tenha chegado o momento de deixar de considerar os descendentes da emigração italiana como um problema administrativo a ser limitado e começar a enxergá-los pelo que muitos deles realmente podem representar, uma parte da nossa história que ainda deseja participar da construção do nosso futuro.
Que a Justiça seja feita.
Outros Aprofundamentos
O primeiro passo rumo ao reconhecimento
Cada caso exige uma estratégia jurídica específica.

O primeiro passo rumo ao reconhecimento
Cada caso exige uma estratégia jurídica específica.

O primeiro passo rumo ao reconhecimento
Cada caso exige uma estratégia jurídica específica.

Um País que perde milhões de habitantes pode se dar ao luxo de afastar seus próprios descendentes?

As novas projeções demográficas divulgadas pelo ISTAT colocam a Itália diante de uma realidade que já não pode ser tratada como uma hipótese distante. O País caminha para uma redução significativa de sua população, acompanhada por um envelhecimento progressivo, pela diminuição da força de trabalho e por uma profunda transformação de sua estrutura familiar e social.
Segundo os dados publicados, a população residente poderá passar dos atuais 58,9 milhões de pessoas para cerca de 55 milhões em 2050 e apenas 45,8 milhões em 2080. Em pouco mais de meio século, a Itália poderá perder mais de 13 milhões de habitantes.
O próprio ISTAT considera a diminuição da população um resultado praticamente certo, já que nenhum dos cenários analisados prevê, no médio e longo prazo, um retorno aos níveis demográficos atuais.
Não se trata de uma opinião política, de uma previsão jornalística ou de uma simples suposição sobre o futuro. São projeções demográficas elaboradas pelo Istituto Nazionale di Statistica com base em dados oficiais relativos à população residente, às famílias e à força de trabalho.
Os números não descrevem apenas uma Itália com menos habitantes. Descrevem também um País progressivamente mais envelhecido.
A idade média continuará aumentando, enquanto crescerá de forma significativa a proporção de pessoas com mais de 65 anos e diminuirá o peso da população em idade ativa. Em 2080, os maiores de 65 anos poderão representar aproximadamente 36,8% da população, enquanto a faixa entre 15 e 64 anos poderá cair para cerca de 53,2% do total.
As consequências são evidentes. Haverá menos trabalhadores, menos contribuintes, menor renovação geracional e uma pressão cada vez maior sobre os sistemas previdenciário, sanitário e assistencial.
Também será mais difícil manter economicamente vivas cidades e pequenas comunidades que já hoje enfrentam o despovoamento e o envelhecimento da população. O futuro descrito pelos números não começa em 2080. Ele já pode ser visto no cotidiano italiano.
Existe ainda um dado particularmente importante. Nem mesmo o saldo migratório positivo previsto será suficiente para compensar as perdas decorrentes da diferença entre nascimentos e mortes. O ISTAT prevê que a Itália continuará recebendo do exterior mais pessoas do que aquelas que deixarão o País, mas isso não impedirá o declínio demográfico provocado pelo saldo natural negativo.
Esse dado deveria ser suficiente para abrir uma reflexão nacional muito mais profunda sobre o futuro da Itália e, sobretudo, sobre quem poderá participar da reconstrução demográfica, econômica e social do País.
A pressão migratória já afeta o Estado e a Justiça
Quase ao mesmo tempo em que foram divulgadas as novas projeções demográficas, outra notícia ajudou a compreender a dimensão dos desafios que a Itália terá de enfrentar.
A Relazione n. 35/2026 do Ufficio del Massimario della Corte di Cassazione analisou os efeitos do novo regime europeu em matéria de migração e asilo e o impacto potencial dessas mudanças sobre a atividade jurisdicional.
Segundo os dados citados, os procedimentos de fronteira atribuídos à Itália poderão alcançar 16.032 em 2026, 24.048 em 2027 e 32.064 em 2028. A própria relação chama atenção para a pressão que as controvérsias relativas à proteção internacional poderão exercer sobre o trabalho da Suprema Corte.
É importante esclarecer que esses números não correspondem automaticamente a 32 mil recursos perante a Corte di Cassazione. Eles se referem aos procedimentos de fronteira atribuídos à Itália e ao potencial contencioso que deles poderá resultar.
O novo sistema prevê recursos e outras formas de tutela judicial em matérias relacionadas à retenção de requerentes de asilo, procedimentos de fronteira, medidas alternativas, obrigações de residência em locais específicos e retenções para averiguações. Em determinadas situações, também a Corte di Cassazione poderá ser chamada a decidir.
Nada disso significa que o Estado italiano não deva garantir proteção jurídica aos imigrantes. Naturalmente deve.
Um Estado de Direito tem a obrigação de assegurar os direitos fundamentais e o acesso à Justiça a qualquer pessoa submetida à sua autoridade, independentemente da nacionalidade. A Itália possui obrigações constitucionais, europeias e internacionais que precisam ser respeitadas.
A questão que merece reflexão é outra.
É difícil compreender como o mesmo Estado que precisa organizar normas, procedimentos administrativos, estruturas de acolhimento e instrumentos jurisdicionais para administrar os atuais fluxos migratórios demonstra tão pouca capacidade de formular uma política ampla e coerente para os milhões de descendentes de italianos espalhados pelo mundo.
Esses descendentes não têm qualquer relação com os atuais fluxos migratórios. O vínculo deles com a Itália nasce diretamente da própria história italiana.
Quando foram os italianos que precisaram partir
Durante décadas, milhões de italianos deixaram o País porque aqui não encontravam as condições necessárias para construir o próprio futuro.
Guerras, pobreza, fome, falta de trabalho e ausência de perspectivas obrigaram famílias inteiras a buscar novos horizontes. Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Venezuela e tantos outros países receberam italianos que deixavam para trás suas cidades, suas famílias e uma terra na qual, muitas vezes, teriam preferido permanecer.
Partiram levando consigo seus sobrenomes, seus costumes, seus dialetos, suas tradições e sua memória familiar. Em outros continentes construíram comunidades, associações, escolas, empresas, hospitais e instituições que mantiveram vivo durante gerações algum tipo de vínculo com a Itália.
Também é necessário reconhecer uma realidade histórica incômoda. Em muitos casos, aqueles italianos foram abandonados pelo próprio Estado.
A Itália daquele tempo não conseguiu oferecer trabalho, segurança e perspectivas suficientes para que permanecessem. Foram obrigados a procurar em outros lugares aquilo que sua terra de origem não conseguia lhes proporcionar.
Seus filhos nasceram longe. Seus netos nasceram longe. O mesmo aconteceu com seus bisnetos.
Isso não ocorreu porque aquelas famílias simplesmente decidiram romper seus vínculos com a Itália. A distância geográfica acumulada ao longo das gerações foi, em grande medida, consequência direta das condições históricas que empurraram milhões de italianos para fora de seu próprio território.
É justamente por isso que causa tanta indignação constatar que, no momento em que a Itália começa a enfrentar uma das crises demográficas mais graves de sua história moderna, a resposta legislativa tenha sido limitar profundamente o reconhecimento da cidadania a uma parte dos descendentes daqueles mesmos italianos que um dia precisaram partir.
A contradição da reforma de 2025
As mudanças legislativas de 2025 foram justificadas, entre outros argumentos, pela necessidade de reforçar a existência de vínculos efetivos com a República Italiana.
Se esse fosse realmente o objetivo principal, seria natural esperar uma política nacional destinada a reconstruir concretamente a relação entre a Itália e sua diáspora.
Seria possível imaginar programas de retorno, incentivos para famílias jovens, procedimentos mais simples para reconhecimento de qualificações profissionais, formação linguística, políticas habitacionais e medidas capazes de favorecer a instalação em municípios atingidos pelo despovoamento.
Também seria razoável prever instrumentos específicos para empresários, pesquisadores, profissionais altamente qualificados e investidores interessados em transferir para a Itália conhecimento, patrimônio e experiência adquiridos durante décadas no exterior.
Uma medida concreta foi efetivamente adotada. Determinados descendentes de cidadãos italianos provenientes de alguns países podem beneficiar-se de uma possibilidade facilitada de entrada na Itália para trabalho subordinado fora das quotas ordinárias.
Seria incorreto ignorar essa iniciativa. O problema está em imaginar que ela possa representar uma verdadeira política de retorno da diáspora.
Existe uma contradição profunda em limitar o reconhecimento da cidadania iure sanguinis e, ao mesmo tempo, reservar ao descendente uma via de entrada essencialmente vinculada à sua condição de trabalhador subordinado.
A mensagem transmitida é difícil de aceitar. O vínculo histórico e familiar com a Itália pode deixar de ser considerado suficiente para o reconhecimento da cidadania, mas volta a adquirir importância quando esse mesmo descendente pode ocupar um posto de trabalho de que o País necessita.
É muito pouco.
Os descendentes da emigração italiana não constituem uma reserva internacional de mão de obra.
Entre eles há empresários, pesquisadores, médicos, engenheiros, advogados, arquitetos, agricultores, comerciantes, investidores, professores, técnicos e profissionais das mais diversas áreas. Há pessoas que construíram patrimônio, conhecimento e experiência internacional ao longo de gerações nos países em que suas famílias se estabeleceram.
É inevitável perguntar o que a Itália oferece ao descendente que não pretende chegar ao País para ser empregado, mas para empreender.
O que acontece com aquele que deseja abrir uma empresa, investir seu próprio patrimônio, criar postos de trabalho, recuperar um imóvel abandonado, desenvolver uma atividade agrícola, fundar uma empresa de tecnologia, exercer uma profissão ou investir justamente em um dos pequenos municípios italianos que perdem habitantes todos os anos?
Onde está a política destinada a essa pessoa?
Onde estão os instrumentos concretos capazes de transformar conhecimento, capital e experiência adquiridos no exterior em desenvolvimento econômico dentro da Itália?
O problema é ainda maior para quem quer empreender
A questão se torna ainda mais evidente quando observamos a realidade de quem já vive na Itália.
O cidadão italiano que nasceu aqui, estudou aqui, conhece a língua, compreende a administração pública e sabe como funcionam as instituições já enfrenta enormes dificuldades para empreender.
A complexidade tributária, a burocracia, os custos, as autorizações, os procedimentos administrativos e prazos muitas vezes incompatíveis com as necessidades da atividade econômica constituem obstáculos permanentes para quem pretende criar e desenvolver uma empresa.
Se até mesmo quem sempre viveu na Itália encontra dificuldades para encontrar um ambiente simples e favorável no qual transformar uma ideia em atividade econômica, é legítimo perguntar que política realmente existe para o descendente que deseja retornar não para procurar emprego, mas para criar empregos.
Essa talvez seja uma das maiores fragilidades da atual visão sobre a diáspora.
Uma verdadeira política de retorno não pode se limitar à possibilidade de alguém vir à Itália para trabalhar para outra pessoa. Deveria criar condições para que esse descendente pudesse construir algo na Itália.
Talvez ele possua exatamente aquilo de que o País precisará cada vez mais nas próximas décadas. Juventude, filhos, conhecimento, capital, experiência internacional, capacidade empresarial, vontade de investir e disposição para iniciar uma nova vida na terra de seus antepassados.
A Itália deveria estar interessada em conhecer quais descendentes desejam viver aqui, trazer suas famílias, comprar imóveis, recuperar propriedades abandonadas, investir, produzir, desenvolver tecnologia, abrir empresas e criar postos de trabalho.
Isso significaria dar conteúdo real ao conceito de vínculo efetivo.
O que existe hoje ainda está muito distante dessa visão.
Em muitos casos, um descendente pode deixar de ser reconhecido como italiano, mas pode encontrar uma via especial de entrada se estiver disposto a ocupar um posto de trabalho subordinado.
Para um País que possui uma das maiores diásporas do mundo e que, ao mesmo tempo, se prepara para perder milhões de habitantes, essa resposta é insuficiente e revela uma preocupante falta de visão estratégica.
A Itália não precisa escolher entre imigração e diáspora
Defender uma política séria para os descendentes de italianos não significa questionar os direitos daqueles que atualmente chegam à Itália por outras formas de migração.
São realidades diferentes.
A Itália continuará tendo de administrar a imigração e continuará obrigada a respeitar os direitos fundamentais daqueles que chegam ao seu território. O Estado e a Justiça precisam cumprir suas respectivas funções.
Nada disso impede que exista, paralelamente, uma política nacional voltada à própria diáspora italiana.
O que causa perplexidade é verificar a capacidade do Estado de criar novas regras, procedimentos, estruturas e mecanismos destinados a administrar os movimentos migratórios contemporâneos e, ao mesmo tempo, observar a ausência de uma estratégia igualmente ambiciosa para reconstruir a relação com os descendentes daqueles italianos que o País perdeu ao longo de sua história.
O debate já não é apenas histórico ou sentimental.
Hoje ele é demográfico, econômico, previdenciário, territorial, produtivo, cultural e jurídico.
Os dados oficiais indicam que a Itália poderá perder mais de 13 milhões de habitantes. A população continuará envelhecendo e diminuirá o número de pessoas em idade ativa. Nem mesmo o saldo migratório positivo projetado será suficiente para compensar completamente o declínio provocado pelo saldo natural negativo.
Ao mesmo tempo, o Estado e a Justiça já se preparam para enfrentar um volume crescente de procedimentos relacionados à imigração e à proteção internacional.
É diante dessa realidade que causa ainda mais indignação acompanhar as batalhas administrativas e judiciais travadas por descendentes de italianos para preservar uma relação jurídica nascida justamente da história deste País.
Talvez uma parte do futuro da Itália já esteja espalhada pelo mundo
Naturalmente, nem todos os descendentes de italianos desejam viver na Itália.
Nem todos falam italiano, nem todos mantiveram um vínculo cultural concreto com o País e nem todos pretendem abandonar os lugares onde nasceram e construíram suas vidas.
Isso é evidente.
Mas justamente por essa razão seria necessária uma política inteligente, capaz de identificar e aproximar aqueles que realmente desejam transformar sua origem familiar em um projeto de vida presente na Itália.
Existem no mundo milhões de descendentes que poderiam trazer famílias, filhos, trabalho, conhecimento, capital, empreendedorismo, experiência internacional e capacidade de investimento.
O Estado deveria criar condições para aproximar essas pessoas, em vez de primeiro restringir seu vínculo jurídico e depois oferecer uma possibilidade limitada de entrada destinada principalmente a satisfazer a necessidade de trabalho subordinado.
A Itália pode modificar suas leis, estabelecer critérios e combater abusos. Tudo isso faz parte do debate democrático.
O que não deveria fazer é perder sua própria memória.
Milhões de italianos deixaram o País porque, em determinado momento histórico, a Itália não conseguiu lhes oferecer as condições necessárias para permanecer. Seus descendentes cresceram longe porque seus pais, avós e bisavós precisaram procurar em outras terras as oportunidades que aqui não existiam.
Hoje são os próprios dados oficiais do Estado italiano que mostram a dimensão do problema que se aproxima.
Diante dessa realidade, afastar justamente uma parte dessa descendência torna-se uma escolha cada vez mais difícil de compreender.
Uma verdadeira política de retorno não se mede por discursos, nem apenas pelo conteúdo de uma norma. No papel, qualquer intenção pode ser escrita.
Ela se mede por oportunidades concretas para reconstruir uma vida, formar uma família, investir, empreender, trabalhar e participar plenamente da sociedade italiana.
A diáspora italiana não pode ser vista apenas como uma fonte conveniente de trabalhadores estrangeiros à qual recorrer quando faltarem pessoas no mercado de trabalho.
Ela faz parte da história da Itália.
E, se houver capacidade política e visão de futuro, também poderá fazer parte da solução para os problemas que os números já estão anunciando.
A Itália está perdendo população e envelhecendo. Isso já não é uma suposição.
Talvez tenha chegado o momento de deixar de considerar os descendentes da emigração italiana como um problema administrativo a ser limitado e começar a enxergá-los pelo que muitos deles realmente podem representar, uma parte da nossa história que ainda deseja participar da construção do nosso futuro.
Que a Justiça seja feita.
Outros Aprofundamentos
O primeiro passo rumo ao reconhecimento
Cada caso exige uma estratégia jurídica específica.

O primeiro passo rumo ao reconhecimento
Cada caso exige uma estratégia jurídica específica.

O primeiro passo rumo ao reconhecimento
Cada caso exige uma estratégia jurídica específica.

Um País que perde milhões de habitantes pode se dar ao luxo de afastar seus próprios descendentes?

As novas projeções demográficas divulgadas pelo ISTAT colocam a Itália diante de uma realidade que já não pode ser tratada como uma hipótese distante. O País caminha para uma redução significativa de sua população, acompanhada por um envelhecimento progressivo, pela diminuição da força de trabalho e por uma profunda transformação de sua estrutura familiar e social.
Segundo os dados publicados, a população residente poderá passar dos atuais 58,9 milhões de pessoas para cerca de 55 milhões em 2050 e apenas 45,8 milhões em 2080. Em pouco mais de meio século, a Itália poderá perder mais de 13 milhões de habitantes.
O próprio ISTAT considera a diminuição da população um resultado praticamente certo, já que nenhum dos cenários analisados prevê, no médio e longo prazo, um retorno aos níveis demográficos atuais.
Não se trata de uma opinião política, de uma previsão jornalística ou de uma simples suposição sobre o futuro. São projeções demográficas elaboradas pelo Istituto Nazionale di Statistica com base em dados oficiais relativos à população residente, às famílias e à força de trabalho.
Os números não descrevem apenas uma Itália com menos habitantes. Descrevem também um País progressivamente mais envelhecido.
A idade média continuará aumentando, enquanto crescerá de forma significativa a proporção de pessoas com mais de 65 anos e diminuirá o peso da população em idade ativa. Em 2080, os maiores de 65 anos poderão representar aproximadamente 36,8% da população, enquanto a faixa entre 15 e 64 anos poderá cair para cerca de 53,2% do total.
As consequências são evidentes. Haverá menos trabalhadores, menos contribuintes, menor renovação geracional e uma pressão cada vez maior sobre os sistemas previdenciário, sanitário e assistencial.
Também será mais difícil manter economicamente vivas cidades e pequenas comunidades que já hoje enfrentam o despovoamento e o envelhecimento da população. O futuro descrito pelos números não começa em 2080. Ele já pode ser visto no cotidiano italiano.
Existe ainda um dado particularmente importante. Nem mesmo o saldo migratório positivo previsto será suficiente para compensar as perdas decorrentes da diferença entre nascimentos e mortes. O ISTAT prevê que a Itália continuará recebendo do exterior mais pessoas do que aquelas que deixarão o País, mas isso não impedirá o declínio demográfico provocado pelo saldo natural negativo.
Esse dado deveria ser suficiente para abrir uma reflexão nacional muito mais profunda sobre o futuro da Itália e, sobretudo, sobre quem poderá participar da reconstrução demográfica, econômica e social do País.
A pressão migratória já afeta o Estado e a Justiça
Quase ao mesmo tempo em que foram divulgadas as novas projeções demográficas, outra notícia ajudou a compreender a dimensão dos desafios que a Itália terá de enfrentar.
A Relazione n. 35/2026 do Ufficio del Massimario della Corte di Cassazione analisou os efeitos do novo regime europeu em matéria de migração e asilo e o impacto potencial dessas mudanças sobre a atividade jurisdicional.
Segundo os dados citados, os procedimentos de fronteira atribuídos à Itália poderão alcançar 16.032 em 2026, 24.048 em 2027 e 32.064 em 2028. A própria relação chama atenção para a pressão que as controvérsias relativas à proteção internacional poderão exercer sobre o trabalho da Suprema Corte.
É importante esclarecer que esses números não correspondem automaticamente a 32 mil recursos perante a Corte di Cassazione. Eles se referem aos procedimentos de fronteira atribuídos à Itália e ao potencial contencioso que deles poderá resultar.
O novo sistema prevê recursos e outras formas de tutela judicial em matérias relacionadas à retenção de requerentes de asilo, procedimentos de fronteira, medidas alternativas, obrigações de residência em locais específicos e retenções para averiguações. Em determinadas situações, também a Corte di Cassazione poderá ser chamada a decidir.
Nada disso significa que o Estado italiano não deva garantir proteção jurídica aos imigrantes. Naturalmente deve.
Um Estado de Direito tem a obrigação de assegurar os direitos fundamentais e o acesso à Justiça a qualquer pessoa submetida à sua autoridade, independentemente da nacionalidade. A Itália possui obrigações constitucionais, europeias e internacionais que precisam ser respeitadas.
A questão que merece reflexão é outra.
É difícil compreender como o mesmo Estado que precisa organizar normas, procedimentos administrativos, estruturas de acolhimento e instrumentos jurisdicionais para administrar os atuais fluxos migratórios demonstra tão pouca capacidade de formular uma política ampla e coerente para os milhões de descendentes de italianos espalhados pelo mundo.
Esses descendentes não têm qualquer relação com os atuais fluxos migratórios. O vínculo deles com a Itália nasce diretamente da própria história italiana.
Quando foram os italianos que precisaram partir
Durante décadas, milhões de italianos deixaram o País porque aqui não encontravam as condições necessárias para construir o próprio futuro.
Guerras, pobreza, fome, falta de trabalho e ausência de perspectivas obrigaram famílias inteiras a buscar novos horizontes. Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Venezuela e tantos outros países receberam italianos que deixavam para trás suas cidades, suas famílias e uma terra na qual, muitas vezes, teriam preferido permanecer.
Partiram levando consigo seus sobrenomes, seus costumes, seus dialetos, suas tradições e sua memória familiar. Em outros continentes construíram comunidades, associações, escolas, empresas, hospitais e instituições que mantiveram vivo durante gerações algum tipo de vínculo com a Itália.
Também é necessário reconhecer uma realidade histórica incômoda. Em muitos casos, aqueles italianos foram abandonados pelo próprio Estado.
A Itália daquele tempo não conseguiu oferecer trabalho, segurança e perspectivas suficientes para que permanecessem. Foram obrigados a procurar em outros lugares aquilo que sua terra de origem não conseguia lhes proporcionar.
Seus filhos nasceram longe. Seus netos nasceram longe. O mesmo aconteceu com seus bisnetos.
Isso não ocorreu porque aquelas famílias simplesmente decidiram romper seus vínculos com a Itália. A distância geográfica acumulada ao longo das gerações foi, em grande medida, consequência direta das condições históricas que empurraram milhões de italianos para fora de seu próprio território.
É justamente por isso que causa tanta indignação constatar que, no momento em que a Itália começa a enfrentar uma das crises demográficas mais graves de sua história moderna, a resposta legislativa tenha sido limitar profundamente o reconhecimento da cidadania a uma parte dos descendentes daqueles mesmos italianos que um dia precisaram partir.
A contradição da reforma de 2025
As mudanças legislativas de 2025 foram justificadas, entre outros argumentos, pela necessidade de reforçar a existência de vínculos efetivos com a República Italiana.
Se esse fosse realmente o objetivo principal, seria natural esperar uma política nacional destinada a reconstruir concretamente a relação entre a Itália e sua diáspora.
Seria possível imaginar programas de retorno, incentivos para famílias jovens, procedimentos mais simples para reconhecimento de qualificações profissionais, formação linguística, políticas habitacionais e medidas capazes de favorecer a instalação em municípios atingidos pelo despovoamento.
Também seria razoável prever instrumentos específicos para empresários, pesquisadores, profissionais altamente qualificados e investidores interessados em transferir para a Itália conhecimento, patrimônio e experiência adquiridos durante décadas no exterior.
Uma medida concreta foi efetivamente adotada. Determinados descendentes de cidadãos italianos provenientes de alguns países podem beneficiar-se de uma possibilidade facilitada de entrada na Itália para trabalho subordinado fora das quotas ordinárias.
Seria incorreto ignorar essa iniciativa. O problema está em imaginar que ela possa representar uma verdadeira política de retorno da diáspora.
Existe uma contradição profunda em limitar o reconhecimento da cidadania iure sanguinis e, ao mesmo tempo, reservar ao descendente uma via de entrada essencialmente vinculada à sua condição de trabalhador subordinado.
A mensagem transmitida é difícil de aceitar. O vínculo histórico e familiar com a Itália pode deixar de ser considerado suficiente para o reconhecimento da cidadania, mas volta a adquirir importância quando esse mesmo descendente pode ocupar um posto de trabalho de que o País necessita.
É muito pouco.
Os descendentes da emigração italiana não constituem uma reserva internacional de mão de obra.
Entre eles há empresários, pesquisadores, médicos, engenheiros, advogados, arquitetos, agricultores, comerciantes, investidores, professores, técnicos e profissionais das mais diversas áreas. Há pessoas que construíram patrimônio, conhecimento e experiência internacional ao longo de gerações nos países em que suas famílias se estabeleceram.
É inevitável perguntar o que a Itália oferece ao descendente que não pretende chegar ao País para ser empregado, mas para empreender.
O que acontece com aquele que deseja abrir uma empresa, investir seu próprio patrimônio, criar postos de trabalho, recuperar um imóvel abandonado, desenvolver uma atividade agrícola, fundar uma empresa de tecnologia, exercer uma profissão ou investir justamente em um dos pequenos municípios italianos que perdem habitantes todos os anos?
Onde está a política destinada a essa pessoa?
Onde estão os instrumentos concretos capazes de transformar conhecimento, capital e experiência adquiridos no exterior em desenvolvimento econômico dentro da Itália?
O problema é ainda maior para quem quer empreender
A questão se torna ainda mais evidente quando observamos a realidade de quem já vive na Itália.
O cidadão italiano que nasceu aqui, estudou aqui, conhece a língua, compreende a administração pública e sabe como funcionam as instituições já enfrenta enormes dificuldades para empreender.
A complexidade tributária, a burocracia, os custos, as autorizações, os procedimentos administrativos e prazos muitas vezes incompatíveis com as necessidades da atividade econômica constituem obstáculos permanentes para quem pretende criar e desenvolver uma empresa.
Se até mesmo quem sempre viveu na Itália encontra dificuldades para encontrar um ambiente simples e favorável no qual transformar uma ideia em atividade econômica, é legítimo perguntar que política realmente existe para o descendente que deseja retornar não para procurar emprego, mas para criar empregos.
Essa talvez seja uma das maiores fragilidades da atual visão sobre a diáspora.
Uma verdadeira política de retorno não pode se limitar à possibilidade de alguém vir à Itália para trabalhar para outra pessoa. Deveria criar condições para que esse descendente pudesse construir algo na Itália.
Talvez ele possua exatamente aquilo de que o País precisará cada vez mais nas próximas décadas. Juventude, filhos, conhecimento, capital, experiência internacional, capacidade empresarial, vontade de investir e disposição para iniciar uma nova vida na terra de seus antepassados.
A Itália deveria estar interessada em conhecer quais descendentes desejam viver aqui, trazer suas famílias, comprar imóveis, recuperar propriedades abandonadas, investir, produzir, desenvolver tecnologia, abrir empresas e criar postos de trabalho.
Isso significaria dar conteúdo real ao conceito de vínculo efetivo.
O que existe hoje ainda está muito distante dessa visão.
Em muitos casos, um descendente pode deixar de ser reconhecido como italiano, mas pode encontrar uma via especial de entrada se estiver disposto a ocupar um posto de trabalho subordinado.
Para um País que possui uma das maiores diásporas do mundo e que, ao mesmo tempo, se prepara para perder milhões de habitantes, essa resposta é insuficiente e revela uma preocupante falta de visão estratégica.
A Itália não precisa escolher entre imigração e diáspora
Defender uma política séria para os descendentes de italianos não significa questionar os direitos daqueles que atualmente chegam à Itália por outras formas de migração.
São realidades diferentes.
A Itália continuará tendo de administrar a imigração e continuará obrigada a respeitar os direitos fundamentais daqueles que chegam ao seu território. O Estado e a Justiça precisam cumprir suas respectivas funções.
Nada disso impede que exista, paralelamente, uma política nacional voltada à própria diáspora italiana.
O que causa perplexidade é verificar a capacidade do Estado de criar novas regras, procedimentos, estruturas e mecanismos destinados a administrar os movimentos migratórios contemporâneos e, ao mesmo tempo, observar a ausência de uma estratégia igualmente ambiciosa para reconstruir a relação com os descendentes daqueles italianos que o País perdeu ao longo de sua história.
O debate já não é apenas histórico ou sentimental.
Hoje ele é demográfico, econômico, previdenciário, territorial, produtivo, cultural e jurídico.
Os dados oficiais indicam que a Itália poderá perder mais de 13 milhões de habitantes. A população continuará envelhecendo e diminuirá o número de pessoas em idade ativa. Nem mesmo o saldo migratório positivo projetado será suficiente para compensar completamente o declínio provocado pelo saldo natural negativo.
Ao mesmo tempo, o Estado e a Justiça já se preparam para enfrentar um volume crescente de procedimentos relacionados à imigração e à proteção internacional.
É diante dessa realidade que causa ainda mais indignação acompanhar as batalhas administrativas e judiciais travadas por descendentes de italianos para preservar uma relação jurídica nascida justamente da história deste País.
Talvez uma parte do futuro da Itália já esteja espalhada pelo mundo
Naturalmente, nem todos os descendentes de italianos desejam viver na Itália.
Nem todos falam italiano, nem todos mantiveram um vínculo cultural concreto com o País e nem todos pretendem abandonar os lugares onde nasceram e construíram suas vidas.
Isso é evidente.
Mas justamente por essa razão seria necessária uma política inteligente, capaz de identificar e aproximar aqueles que realmente desejam transformar sua origem familiar em um projeto de vida presente na Itália.
Existem no mundo milhões de descendentes que poderiam trazer famílias, filhos, trabalho, conhecimento, capital, empreendedorismo, experiência internacional e capacidade de investimento.
O Estado deveria criar condições para aproximar essas pessoas, em vez de primeiro restringir seu vínculo jurídico e depois oferecer uma possibilidade limitada de entrada destinada principalmente a satisfazer a necessidade de trabalho subordinado.
A Itália pode modificar suas leis, estabelecer critérios e combater abusos. Tudo isso faz parte do debate democrático.
O que não deveria fazer é perder sua própria memória.
Milhões de italianos deixaram o País porque, em determinado momento histórico, a Itália não conseguiu lhes oferecer as condições necessárias para permanecer. Seus descendentes cresceram longe porque seus pais, avós e bisavós precisaram procurar em outras terras as oportunidades que aqui não existiam.
Hoje são os próprios dados oficiais do Estado italiano que mostram a dimensão do problema que se aproxima.
Diante dessa realidade, afastar justamente uma parte dessa descendência torna-se uma escolha cada vez mais difícil de compreender.
Uma verdadeira política de retorno não se mede por discursos, nem apenas pelo conteúdo de uma norma. No papel, qualquer intenção pode ser escrita.
Ela se mede por oportunidades concretas para reconstruir uma vida, formar uma família, investir, empreender, trabalhar e participar plenamente da sociedade italiana.
A diáspora italiana não pode ser vista apenas como uma fonte conveniente de trabalhadores estrangeiros à qual recorrer quando faltarem pessoas no mercado de trabalho.
Ela faz parte da história da Itália.
E, se houver capacidade política e visão de futuro, também poderá fazer parte da solução para os problemas que os números já estão anunciando.
A Itália está perdendo população e envelhecendo. Isso já não é uma suposição.
Talvez tenha chegado o momento de deixar de considerar os descendentes da emigração italiana como um problema administrativo a ser limitado e começar a enxergá-los pelo que muitos deles realmente podem representar, uma parte da nossa história que ainda deseja participar da construção do nosso futuro.
Que a Justiça seja feita.
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O primeiro passo rumo ao reconhecimento
Cada caso exige uma estratégia jurídica específica.

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